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"Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda criatura" (Mc 16,15)
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Serviço Bíblico

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Domingo, 18 de julho de 2010

 

16º Domingo do Tempo Comum

 

Santos do Dia: Arnulfo de Metz (bispo), Bruno de Segni (bispo), Emiliano da Bulgária (mártir), Filastro da Bréscia (bispo), Frederico de Utrecht (bispo, mártir), Hervé de Anjou (eremita), Marina de Orense (virgem, mártir), Materno de Milão (bispo), Rufílio de Forlimpopoli (bispo), Teneva de Glasgow (viúva).

 

Primeira leitura: Gênesis 18, 1-10a
Meu Senhor, não prossigas viagem, sem parar junto a mim, teu servo.
Salmo responsorial: 14, 2-3ab. 3cd-4ab.5
Senhor, quem morará em vossa casa?
Segunda leitura: Colossenses 1, 24-28
O mistério escondido por séculos e gerações, mas agora revelado aos seus santos.
Evangelho: Lucas 10, 38-42
Marta recebeu-o em sua casa. Maria escolheu a melhor parte.

 

O texto da primeira leitura nos apresenta uma cena familiar. Abraão, sentado diante da tenda, recebe a visita do Senhor. Abraão acolhe a visita com hospitalidade. Deus premia Sara com a fecundidade. Três traços fundamentais caracterizam o texto: a fé de Abraão ao reconhecer o Senhor. A hospitalidade com que recebe o Senhor e a familiaridade de Deus com Abraão e sua família. É um belo exemplo da relação e acolhida de Deus pelo ser humano, a única possível para caminhar.


Voltamos a encontrar, na segunda leitura de hoje, o pensamento de Paulo sobre o mistério de Deus e sua revelação por meio da pregação e a contribuição de Paulo a essa revelação pelo sofrimento. Cristo revela a riqueza de Deus na pobreza da cruz e o apóstolo será o distribuidor da mesma a homens e mulheres.

Um primeiro comentário ao evangelho de hoje: Lucas nos apresenta um fato da tradição existente no círculo de seus discípulos, especialmente mulheres. Mara e Maria, irmãs de Lázaro, recebem o Senhor em sua casa. O Caso de Marta e Maria é aproveitado mais uma vez por Lucas para ressaltar o valor da escuta da Palavra de Deus. Sem entrar na teoria do valor da contemplação sobre a ação que se quis ver nas duas atitudes opostas de Marta e Maria, o certo do fato é que o Reino de Deus não pode deixar-se distrair por uma preocupação exclusiva pelas realidades terrenas. Por outro lado, escutar a Palavra de Deus não é algo meramente ocasional, mas algo importante na vida: é tudo.


Estamos diante de um quadro familiar no qual Jesus visita suas amigas. Marta e Maria, o recebem em sua casa. Marta se multiplica para dar conta do serviço para atender ao hóspede, mas Jesus a repreende porque anda inquieta “com tantas coisas”. Marta não encontra a colaboração de ninguém. Efetivamente, a irmã sentou-se aos pés de Jesus e está ocupada completamente na escuta de sua palavra.


O Mestre não aprova o afã, a agitação, a dispersão, o andar em mil direções “da ama de casa”. Qual é, pois, o erro de Marta? É não ter entendido que a chegada de Cristo significa, principalmente, a grande ocasião, que não se deve perder, e por conseguinte, a necessidade de sacrificar até mesmo o urgente e o importante.

Porém, a preocupação no comportamento de Marta é conseqüência, sobretudo, do contraste em relação à postura assumida pela irmã. Maria, diante de tanta atividade, escolhe Jesus, coloca no plano do ser e lhe dá a primazia da escuta. Marta, ao contrário, toma decididamente o caminho do ter e da ação.


Marta se precipita para “fazer” e este “fazer” não parte de uma escuta atenta da palavra de Deus e, consequentemente, corre o risco de converter-se em um estéril girar no vazio. Mara, apesar de todas as suas boas intenções, se limita a acolher Jesus em casa. Maria o acolhe “dentro”, se faz recipiente seu. Oferece-lhe hospitalidade naquele espaço interior, secreto, que foi disposto por ele, e que está reservado para ele. Marta oferece coisas a Jesus, enquanto Maria se oferece a si mesma.


Segundo o juízo de Jesus, Maria escolheu sem dúvida, “a melhor parte” (que, apesar das aparências, não é a mais cômoda: fica muito mais fácil mover-se que “entender a Palavra”. Marta, atenta para que não falte nada ao hóspede importante e a todos, deixa passar clamorosamente “a única coisa necessária”. Marta reclama a Jesus: não se sabe o que ela quer.

O problema é precisamente este: descobrir, pouco a pouco, o que Jesus quer de mim. Por isso é necessário parar, deixar que ele venha e tirar tempo para escutar a Palavra de Jesus e compreender qual é realmente a vontade de Deus a respeito de minha vida.

 

Um segundo comentário ao evangelho: no evangelho de Lucas, o caminho de Jesus a Jerusalém, marca uma progressiva manifestação do Reino. À media que avança, vai formando nos discípulos e discípulas atitudes de misericórdia, de abandono das pretensões de poder, e de escuta atenta da Palavra. Nesse caminho, da mesma forma que os missionários que vinham anunciando sua presença, Jesus é recebido pelas mulheres em uma casa de família.


Aí acontecem duas atitudes diferentes. Uma de total atenção e escuta, a outra, de distração e de afã pelas preocupações habituais. O trajeto da vida cotidiana havia enganado a Marta e, provavelmente, a havia tornado surda à palavra de Deus. Ela recebe Jesus, porém não o escuta. Ainda que Jesus entre em sua casa, ela o deixa de lado. Jesus propõe um plano no sentido de formar verdadeiros ouvintes da Palavra – autênticos discípulos – que Marta não está disposta a atender.


Maria, ao contrário, compreende bem o projeto de Jesus e rompe com os preconceitos culturais de sua época. Em lugar de andar atarefada com o labor doméstico “próprio das mulheres” (as “tarefas próprias de seu sexo”, como foi dito e pensado durante tanto tempo), põe-se “aos pés do Senhor para escutar a palavra”. Este gesto, reservado então culturalmente aos discípulos varões, faz dela uma discípula.


Marta, ao afadigar-se com o interminável trabalho da casa, questiona a atitude contraditória de Maria e interpela o Mestre para que “coloque a mulher em seu lugar”. Jesus dá uma resposta inesperada: felicita Maria porque acertou na sua escolha e repreende a Marta por deixar-se envolver nas preocupações cotidianas sem atender ao importante. Efetivamente, Maria fez a melhor opção, a única necessária para colocar-se no caminho de Jesus e ser seu discípulo: decidiu aprender a escutar a Palavra e se deixa interpelar pela presença do Mestre.


Em seu caminho, Jesus vai formando, pois, a seus seguidores nas atitudes indispensáveis para chegar a ser verdadeiros discípulos. Uma dessas atitudes é a da escuta atenta e serena da sua Palavra. Atitude que exige romper com o ritmo louco e interminável da vida cotidiana para colocar-se serena e atentamente aos pés do Mestre. Esta escolha que aos olhos da eficiência pode parecer superficial e inútil, é uma condição fundamental para chegar a ser um autêntico discípulo.


Nós, hoje, vivemos um ritmo de vida mais agitado do que em épocas anteriores. Os meios proporcionados pela tecnologia para poupar tempo também multiplicam as ocupações e acabam fazendo-nos cair em uma ativismo desenfreado. E o excesso de preocupações nos leva a esquecer o fundamental.
Nosso cristianismo se converte assim em um tímido cumprimento de algumas obrigações religiosas, sem espaço para a escuta da Palavra.

Somos exortados, somos bombardeados continuamente com mensagens que nos convidam a sermos “eficazes, produtivos e competitivos”. Porém, com Marta e Maria, Jesus nos interpela e nos chama a respeitar a hierarquia de valores e a colocar em seu lugar a “opção pelo fundamental”: estar a seus pés e escutar sua palavra. Jesus nos convida a que nosso cristianismo seja um verdadeiro discipulado.


Para aprender a lição do Mestre, é preciso deixar-se formar na escuta atenta da Palavra da Bíblia e da vida. A Bíblia não pode permanecer guardada em uma gaveta enquanto nós nos afogamos em interminável torvelinho de atividades cotidianas. A Palavra de Deus está aí para caminhar conosco, passo a passo, dia a dia, minuto a minuto, para ensinar-nos a viver em comunidade a solidariedade que torna efetivo aqui e agora, o reinar de Deus.

Escutar a palavra de Deus é um grande ajuda na difícil realidade de nossos povos: nas inumanas condições das grandes cidades, na solidão e no isolamento dos campos. É preciso, pois, optar por atitudes que nos convertem em verdadeiros discípulos de Jesus e autênticos cristãos.


Não é adequado interpretar o texto em sentido dualista (ou uma ou outra coisa): “ou contemplação e escuta passiva da Palavra, por uma parte... ou, por outra, ação caritativa sem oração nem contemplação”. Marta e Maria não devem ser símbolos e extremos parciais: a escolha não pode ser por nenhuma delas em particular, e sim pelas duas em conjunto. É o que nos diz o poeta Casaldáliga com “o difícil tudo” que escolheu “a outra Maria”:


O DIFICIL TUDO


Tão somente melhor

que a melhor parte

que Maria escolheu.

O difícil tudo.

Acolher o Verbo

dando-se ao serviço.

Vigiar sua ausência,

gritando seu nome

descobrir seu rosto

em todos os rostos.

Fazer do silencio

a melhor escuta.

Traduzir em atos

as Sagradas Letras.

combater amando

morrer pela vida,

lutando na paz.

Derrubar os troncos

com as velhas armas

quebradas de ira,

forradas de flores.

Cantar sobre o mundo

a vinda

que o mundo reclama

talvez sem o saber.

O difícil tudo

que soube escolher

a outra Maria.

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